Tempo, destempo e a persistência da memória
Sabem, às vezes sinto-me a desaparecer.
No início de Dezembro acabei um certo mangá, Noragami, e apesar de eu ler bastantes de uma só vez, este foi um caso onde ficou comigo. Em traços muito largos e sumidos, o que permeou em mim foi a ideia de que estamos vivos somente enquanto alguém se lembrar de nós. Assim que a nossa memória desaparece, também nós morremos. Não é muito diferente da frase feita que se ouve em funerais volta e meia, mas é algo que tenho pensado frequentemente. Era para ter escrito algo um pouco mais leve na altura em que acabei de ler o dito novelema, mas aquele Inverno do último post tirou-me toda a vontade. Tinha feito um esqueleto do post e tudo, mas enfim. Há dias em que acordo e sinto que já não existo.
É claro que estou provavelmente a ser hiperbólico, a afagar as minhas mágoas à laia de qualquer esforço em melhorar mentalmente, mas sempre tive um pouco de fascínio e, de certa forma, temor sobre memórias. Um pouco como tinha mencionado anteriormente, é como se memórias fossem tudo o que me restassem. E penso que até nós humanos visionamos memórias de formas curiosas. Ora recordamos coisas que não aconteceram, ou adulteramos a realidade após anos, por intercessão daqueles óculos-cor-de-rosa a que chamamos coloquialmente de nostalgia. Nem sempre a realidade é como nós nos lembramos dela. Nem sempre o tempo adocica a memória.
No fim do dia, a memória é só uma faceta do tempo, aquela existência intangível que permeia tudo e todos, cujas mãos mecânicas impiedosamente, escrupulosamente, nos levam adiante, incorruptível. E como tudo o que existe, o tempo muda-nos, verga-nos, mesmo que não o queiramos. Podia perder horas a falar da memória, mas acho que o pai dela, o tempo, é mais interessante. Afinal, do tempo brota virtualmente tudo: vida, morte, memória, a passagem das estações, tudo. É tudo meticulosamente gerido pelo tempo, é tudo levado pela mesma mão de forma idêntica inabalável. Nós podemos sentir a sua ação de forma relativa uns com os outros (afinal, a Teoria da Relatividade existe comprovada), mas um segundo continua a ser um segundo, independentemente de como o percepcionamos. Relembra-me às vezes daquele mini-conceito do How I Met Your Mother onde cada um dos cinco teve o seu "segundo mais longo". AInda hoje lembro-me do do Barney melhor do que qualquer outro. E nos dias que correm agora, sinto que é apenas mais uma faceta do Homem tentar controlar o tempo, mesmo que impossível.
Admito um certo terror e prolongado mal-estar consoante as revelações macabras dos ficheiros do Epstein. A menção de que andam/andaram a canibalizar crianças é de longe mais credível agora do que quando passava por teorias dos chalupas há um par de anos. E no entanto, confesso um fascínio grotesco pelas motivações que levam os ricos e poderosos a cometer tal crime. Tanto poder, dinheiro e superioridade sobre a vida dos "plebeus" e "comuns mortais" para também o serem quando se chega ao fundo da questão. Todo este poder padece frente ao tempo e à sua marcha imparável. A procura por formas de rejuvenescimento não é nada de novo; até é algo que sempre andou de mão dada com a chamada "condição humana". Mas talvez porque somos seres racionais que se torna difícil aceitar que o pano cai igual para todos, alheio às proezas das nossas vidas ou influência conquistada. Dá me um certo calorzinho saber que estes seres monstruosos que nos governam mundialmente acabarão por se juntar ao pó da terra; tenho é pena que provavelmente só a lei do tempo os afetará, não a lei humana.
Mas tudo isto para exemplificar que o tempo é o rei de tudo, o nosso bem mais precioso, a moeda de troca com os Deuses que para além do universo certamente habitam. Naturalmente, é um tema que percorre direta ou indiretamente muito dos meus poemas, sobretudo os mais antigos:
“Realidade”
Recordo-me dos dias que vivi
nos tempos áureos da minha infância
Dias onde sempre sorri
ao olhar para eles numa última instância
Recordo-me dos tempos que passei
quando habitava em mim felicidade
Ah! Doce inocência, para onde irei
agora que tudo é uma vã realidade?
Já não sou quem era
Nem o mundo será o que foi:
sempre feliz e em eterna paz.
Às vezes, quem me dera
voltar atrás no tempo que corrói
Realidade, onde tu nos levarás?
[2017?]
“Tempo”
Os dias correm, rápido como vento
O relógio toca, invariavelmente
O seu som, doce lamento
De alguém na vida ausente.
O tempo passa, sempre a voar,
Nunca nota nos que caem para trás.
Não os ouve, os que pedem-lhe para esperar,
Fazê-lo parar, ninguém é capaz.
Mundos constroem-se e desabam
No seu galopar, incansavelmente
Nas paredes, os relógios tocam
Só eles duram eternamente
[2017?]
Nunca consegui descobrir o dia ou o mês exatos onde escrevi estes dois. Escritos num velho caderno A5 verde durante o meu tempo no 3º ciclo e secundário, assumi, aquando a digitalização destes, que foram em 2017 tendo em conta os que vinham a seguir. Mas na altura, eu não era muito ligado a datar e a registar os poemas para além de os escrever diariamente. É claro que tendo os feito dessa forma, sinto que muitos são fracos e apenas palavras atiradas para o papel sem muita lógica por detrás das escolhas. Poemas amadores, simplistas, focados mais em rimas que no sentido por detrás de tudo. Mas mesmo assim, penso que estes dois reflitem bem a sensação do tempo. O primeiro, "Realidade", é um bom exemplo daquela ideia de que tudo era mais feliz e mais inocente quando éramos crianças. É algo que se perde quando crescemos e percebemos que o mundo adulto, o mundo real, é cruel, vil e insano. Resta sempre lá no fundo a vontade de poder tornar o passado no presente; neste caso, tornar esse mundo inocente no mundo real, longe da podridão quotidiana.
No segundo, habilmente titulado "Tempo", é uma visão mais casual e simples, porventura eficaz, da passagem do tempo como maestro do universo. Os relógios são como avatares deste Supremo Condutor, testemunhas, agentes, mãos físicas da Sua Vontade. E lá está, é algo que não dá para controlar ("Fazê-lo parar, ninguém é capaz"). Decerto que a Humanidade, enquanto existir, arranjará sempre formas de o tentar fazer; como disse no início, rituais e canibalismo para tentar reverter a ação do tempo não é nada de novo - lembro-me da infame Elizabeth Báthory - mas acho que não esperávamos algo tão grotesco neste mundo "civilizado". Afinal, estamos na era de cirurgias plásticas, que acabam por ser tentativas rascas de parar o relógio. Pensava que as elites iriam ficar apaziguadas com isso, mas a ganância humana claramente não conhece fronteiras. Talvez no dia em que consigamos ser senhores do Tempo que a Humanidade descenda para a Monstruosidade, alheia à ordem natural.
Noutro tópico ligeiramente mais leve, a tempestade Kristin passou pela minha terrinha e deixou marcas que irão permanecer certamente durante os próximos meses. Avistar a minha casa sem metade do telhado, com água a pingar de todos os tetos dentro de casa, chaminés arrancadas à força, postes eléctricos de madeira cortados ao meio e emaranhados nos cabos ainda e mares de eucaliptos permanentemente em itálico não é algo que esperava ver tão cedo. Passar dias sem luz nem rede lá deu-me a conhecer a verdadeira solidão. De certa forma, eu que sempre me achei isolado quando ia para lá, agora senti na pele realmente um silêncio ensurdecedor. Mas esta abjeta escuridão não me impediu, à luz da lareira ou da lanterna do telemóvel, de acabar de ler All Is Quiet On The Western Front, que já andava para acabar há algum tempo. Confesso, nestas condições ler mais de 200 páginas numa única tarde que se converte em noite mais depressa do que se julga, não estava na minha lista de desejos. Mas confesso, também, que havia uma certa beleza em ver, às dez da noite, a estrada iluminada somente pelo céu noturno e pela lua. Pensaria que seria uma escuridão total; afinal, no mesmo dia quando estava a conduzir, mal se via a estrada já que não há postes de luz a iluminar o caminho. No entanto, o que vi foi um tom suave de azul a percorrer a estrada, uma claridade que julguei impossível àquela hora. Sinto até que, com os postes ligados normalmente, a noite é mais escura do que ela é na realidade. Será que a urbanização e a poluição luminosa, mesmo onde tecnicamente não existe como no campo (o céu noturno, afinal, é bastante visível lá), abafa a luz real e a nossa perceção da noite?
Fig.1 - A noite chuvosa, numa foto desfocada, tirada da janela lá na terrinha. Sim, eu sei que não se vê nada. Hei de a usar como foto para a minha playlist das músicas favoritas deste ano.
Enfim, acabo por não ter um bom poema para transmitir esta sensação. Por isso, permitam-me continuar uma certa tendência que comecei com o outro post e deixar cá uma recomendação de música apropriada. Da outra vez, deixei o álbum The Mantle, dos Agalloch. Desta vez, abordando o tempo e a vontade humana de o tentar agarrar e pará-lo, fica uma das minhas músicas favoritas de Rammstein. Não quero elaborar muito porque é que gosto desta música, isso é tarefa que faço na plataforma AOTY, onde faço lá as minhas críticas a álbuns, mas fica aqui a recomendação. Por agora, é tudo o que vos deixo. Talvez da próxima vez venha realmente aquela postagem mais leve, e com sorte, com poemas mais recentes.

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